Paradoxo
Escrito por Darto" em
April 18, 2008
Quando eu era mais novo não gostava de nada que não fizesse sentido. Odiava, por exemplo, quando um filme acabava e coisas ficavam sem explicação. Pensava: “Se for pra fazer desse jeito, até eu consigo! Criam um mistério e não o resolvem, não mostram de onde veio? Ficam só com a parte fácil…”[não vi nenhuma graça no 'Bruxa de Blair', quando o assisti, há tempos].
Odiava palhaços. Os de circo, mesmo. Sonhava que precisava de informações, e tudo que eles sabiam fazer era ficar pulando de lá pra cá, gastando energia e tempo sem nenhuma finalidade significativa.
Odiava não saber o que estava se passando. Odiava ter que esperar para puxar a corda e dar os nós, ter que aguardar para que tudo se resolvesse.
Pois bem,o tempo passou, e veja só…
Comecei a jogar RPG com meus primos de São Paulo, durante as férias. Quando começávamos a estória, ela era muito envolvente e queríamos chegar logo ao fim, para ver “do que se tratava tudo aquilo”. A pressa não ajudava e “morríamos” no meio do jogo…perguntávamos o que aconteceria se chegássemos ao final, para o elaborador da estória. Ele respondia: “Vocês morreram e não têm como descobrir”. Se fosse pelas minhas antigas preferências, pararia de jogar. Acharia que criar o começo era muito fácil, e que ele não devia nem ter pensado no final. Acontece que eu acreditava e ainda acredito na capacidade dele em criar estórias com explicações coerentes e criativas. E mesmo não as tendo achado, só fiquei mais curioso e com mais vontade de jogar.
Pensei que talvez meu interesse tinha se mantido por minha crença na existência da explicação, e que foi minha falta de capacidade a culpada por não tê-la encontrado.
Fui ler um livro de contos Stephen King[em outra brecha no período letivo, na casa dos meus primos, em São Paulo], um renomado escritor de suspense, pois nenhum filme do gênero que assisti, durante anos, tinha conseguido me assustar. Percebi que muitos dos contos não tinham nenhuma explicação para os fatos decorridos…droga! Mas espere um minuto…achei um que tem! Li, alvoroçado, até o final, e onde esperava achar um deus explicando todos os pormenores complexos que permitiram a ocorrência da estória[até num nível subatômico] encontrei, bem…um ser humano. Pensei: “Só isso?”…e esse pensamento foi infinitamente mais decepcionante que o antigo.
Conheci em aulas do ensino médio e superior, sem contar na internet, incontáveis paradoxos científicos…comecei com o Paradoxo do Avô[sobre viagem no tempo], depois vi os Paradoxos dos Irmãos Gêmeos, de Monty Hall, do Quebra Cabeça do Quadrado Perdido, de Informação no Buraco Negro, da Força Irresistível, de Mpemba, do Gato de Schrödinger[explicado anteriormente por meu amigo Daniel, de Goiânia, que está cursando Engenharia Elétrica aqui na Unesp de Ilha e não tinha citado o nome do paradoxo...agora entendo o nome do blog, e tentarei lê-lo mais], da Onipotência, da Predestinação, do Mentiroso, de Petronius, de Zeno e de Galileu, entre outros, até o mais recente: Paradoxo do Empuxo[graças ao professor Edinilton, Física II]. Posso passar horas discutindo qualquer um deles, e eles levam o título de paradoxo justamente pelo fato de que ninguém, até agora, os solucionou[e provavelmente nem eu o faria]. Pelas minhas antigas preferências, eu manteria muita distância destes assuntos…
Li livros de Isaac Asimov onde eram discutidas a natureza e constituição do Universo:nem ele tinha certezas. De fato, uma das grandes habilidades dele foi mostrar várias possibilidades, seus pontos fracos e fortes, e me deixar escolher, lidando com minhas incertezas.
E pasmem: me tornei um grandíssíssimo palhaço.
Parece que comecei a tomar gosto pelos mistérios inexplicáveis, em todos os níveis. Desde aqueles que aparecem em estórias de livros infantis até aqueles que regem o nosso universo, passando pelos presentes nos livros de história e em cada pronunciamento feminino[que trazem sempre infinitas entrelinhas, desconfio que propositalmente]. Não preciso dizer, dentre os mistérios listados, qual é o mais interessante…tampouco preciso dizer que minha mudança de preferências constitui, bem…um paradoxo.
“…You’ve got somethin that I understand
Hold it in tightly, call on command
Leap of faith, do you doubt?
Cut you in I just cut you out…”
Nonetheless, Darto will be back.
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12 comentários em “Paradoxo”
Os mistérios universais são os que mais tem me fascinado ultimamente, porém a alguns anos tais assuntos nem me interessavam, é muito interessante analisar a própria linha do tempo dos pensamentos e idéias próprios. Eu, particularmente mudei exageradamente dos 12 aos 19 anos.
Darto" disse em April 18th, 2008:
Eu mudei muito depois do primeiro colegial…buscando o equilíbrio^^.
Escrito por henriquewint em Apr 18, 2008
Uma história sem fim é a nossa própria vida, uma história sem fim aguça a curiosidade, o pensar, o sonhar. Se todas as estórias tivessem um fim, diríamos “eu teria feito diferente”. Bom, a maioria dos livros científicos se baseia em teorias… Pensamentos a respeito de como o mundo foi criado. Ta ai um paradoxo diferente, ou seja, de trás para frente!!! Aqui não é o fim, mas sim o começo. Deviam escrever um livro assim também, iniciando pelo fim, mas um suspense no começo!!!! Será que já não existe?
Henrique, obrigado pela visita lá no Melhor Amiga! =0)
henriquewint disse em April 18th, 2008:
Lisa, se nao me engano já existe sim um livro escrito de trás para frente, mas nunca cheguei a lê-lo.
De nada, passarei por lá sempre que eu puder
Escrito por Lisa Lips em Apr 18, 2008
A falta de explicação de várias coisas é o que nos impulsiona para a frente. Também detesto ficar sem explicações, e se algo tá sem explicação, bom, porque não fazer um esforço para explicar
E acho que paradoxos são bugs na programação do Universo, deixados para os humanos se divertirem um pouco.
henriquewint disse em April 18th, 2008:
Gostei da definição do paradoxo.
Escrito por giseli em Apr 18, 2008
Creio que esses paradoxos iniciais, que hoje tentamos desvendar ‘voltando no tempo’, já são complicados justamente por serem paradoxos, e ainda mais intrincados por serem iniciais, e gerarem muitos outros paradoxos. Se a coisa já começou fundamentalmente paradoxal, como resolveremos os problemas que surgem hoje sem solucionar aqueles primeiros, que regem a situação?
Tem o Vidas Secas, que você lê na ordem que quiser…fora esse, não me lembro de nada parecido, e achei uma ótima idéia!
Bem, nós fazemos esforços[muito divertidos] para explicar, mas nunca teremos certeza se acertamos ou não![nunca=por enquanto]
Uhmm, talvez não bugs…brechas inermes.
Escrito por Darto" em Apr 18, 2008
Post fodástico.
Reflexão absolutamente profunda e existencial. O que você falou intuitivamente é o que acontece com praticamente todos nós.
Muitos recorrem à explicações baseadas em mitos, como religiões, outros em teorias científicas. Outros, em um futuro, podem estabelecer um novo critério de investigação que não seja nem racional nem de mito.
O grande lance é que esses mistérios (o paradoxo que se refere) serão, durante muito tempo, bastante difíceis de serem solucionados, e esse é o grande prazer da nossa vida, pelo simples fato de conspirar acerca de todas essas fabulosas indagações.
Darto" disse em April 19th, 2008:
Obrigado! =D
Talvez a dificuldade em resolver esses mistérios se deva às amarras que nossa mente tem com certos preceitos…
Escrito por Santaum em Apr 19, 2008
Meio off topic, mas lembrei de Memento, que é de trás para frente.
Escrito por j. noronha em Apr 19, 2008
noossa, você mais novo sou eu agora.
esse negoço de fisica e paradoxo ta me deixando doido da cabeça.
Darto" disse em August 1st, 2008:
Hehehehehe, percebi que as dificuldades que dão sentido à vida, já que só facilidades seriam sem graça[e indefiníveis sem seu "oposto"].
E é claro que são definidos como paradoxos por não terem uma solução ainda…..você pode encontrá-la!
Escrito por leo em Aug 1, 2008