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Para que serve?


Já vou avisando: quero fazer esse post desde que comecei a comentar no Orkuticídio, e estou absolutamente enviesado por ter lido o artigo “Para que serve?” do genial autor Isaac Asimov. Provavelmente meu post sairá como um resumo mal feito deste artigo…..se alguém quiser o original, não hesite em pedir. É incrível.

Assinale uma das alternativas:

[a]Mais uma aula de história geral, cruzadas, e muitos alunos ocupados discutindo o que aconteceu no Big Brother de ontem.

[b]Outra aula de matemática, matrizes, e alunos entretidos trocando mensagens SMS em seus celulares-semi-robôs-que-fazem-tudo[até conservaram a antiga e inútil propriedade de realizar ligações telefônicas].

Generalizar nunca não faz bem[será?], mas tanto faz a situação escolhida por vossa senhoria[talvez, no ápice da sua rebeldia, tenha escolhido as duas, e as duas provavelmente condizem com a realidade]: quando o professor interpelou seus alunos rebeldes e solicitou atenção, algum malandrão respondeu “E por que tenho que aprender isso? Para que vou usar? Para que serve?”.

Professor, escolha a sua resposta:

[a]Pra fora já, rrrrrrapaizinho! Não teve educação em casa?

[b]Pra tirar nota na minha prova…..farei uma especial pra essa classe.

[c]Pra que serve? Eu uso pra ganhar dinheiro. Foi usando isso que comprei meu carro , minha casa, minha TV de trocentas polegadas e até meu super-celular. O interessante é que esse dinheiro veio do seu bolso, hahahahaha! Já você, não sei pra que vai usar.

[Escolham a C, por favor!] O professor provavelmente dará alguma resposta análoga. Isso porque ele não está muito interessado em entrar nos pormenores. Isso pode cansar, e acho que a pergunta do título é frequente na vida deles.

Aqui, é claro, podemos divagar um pouco mais. Eu não pretendo dormir cedo, mesmo.

Generalizemos dammit, again?! mais um pouco. Cientistas devem escutar muito disso no desenvolvimento de suas pesquisas específicas. Para ele pode ser suficiente valiosa a possibilidade de satisfazer sua curiosidade sobre a questão em si, e assim descobrir um pouco mais do universo que o cerca. Ele pode estranhar o fato de que alguém possa precisar de mais do que isso para se conformar.

Mas o aluno é espertão, e não se importa com nada que não seja diretamente prático. Matrizes? Rá, que idiotice! Números aleatórios pra lá e pra cá, operações bestas pra mudar algo por mudar…..ele não sabe que computadores usam matrizes. Tudo bem, essa foi fácil. Mas e história? O que uma futilidade que aconteceu há zilhões de anos atrás vai me importar? [nem vou citar aqui o efeito borboleta] Se ela aparece nos livros, foi uma futilidade suficientemente importante pra época, e qualquer imbecil das vizinhanças sentiu seu impacto imediatamente, quase simultaneamente à sua ocorrência. Pelo passar do tempo as consequências se estenderam a todos os imbecis[droga, isso é efeito borboleta...deixemos superficial assim]. E até quem é cego de amor por exatas[hahahahaha] deve saber que o professor de matemática conta a história das descobertas de grandes estudiosos…..

Eu acho algumas matérias são fúteis, de vez em quando. Mas não é simples assim. Muitas coisas fúteis numa confluência podem tornar-se significativas[até coisas fúteis sozinhas têm seu significado, mas deixa pra lá]. Uma coisa fútil hoje pode não ser tão fútil amanhã. E depois de pensar um pouco vejo que o fútil sou eu, por ter achado que algum tipo de conhecimento pode não valer a pena. Então nunca mais achei que algum conhecimento fosse tonto. E se um dia isso acontecer de novo, eu já tenho uma tática: estudarei-o completamente e, quando acabar, poderei falar seguramente pra mim mesmo que realmente não era importante, e que minha opinião original era certa[isso nunca acontecerá, e isso é legal :D].

As maiores descobertas foram por acidente. Isso mostra como somos péssimos visionários, deficientes em abstração e prepotentes no geral. Como descobriram microondas? Radioatividade? Princípios para o gerador elétrico? Alguém conhece a irônica história do “Efeito de Edison”? Pois é, acredito que quem despreza algo é justamente aquele que acabará isolado no final. Você não vê além do horizonte? Então é claro que lá tem um abismo, certo?

Trecho [advinha de onde veio]:

Há o caso famoso de um estudante que perguntou ao filósofo grego Platão, cerca de 370 a.C., para que serviam os teoremas complexos e abstratos que ele estava ensinando. Platão, de imediato, ordenou que um escravo desse ao estudante uma pequena moeda, a fim de que ele não pensasse que havia ganho o conhecimento por nada; a seguir, demitiu-o da escola.O estudante não precisava ter perguntado, e Platão não precisava ter escarnecido. Quem duvidaria, nos dias de hoje, de que a Matemática tem seus usos? Os teoremas matemáticos, que se afiguram insuportavelmente requintados e alheados em relação a tudo em que um homem sensato possa estar interessado, aparecem como absolutamente necessários a partes altamente essenciais da nossa vida moderna, como, por exemplo, a rede telefônica que interliga o mundo.Há a história do cientista inglês Michael Faraday, que ilustra esse ponto. Ele foi, em seu tempo, muito popular, como conferencista, e também como físico e químico de primeira classe. Em uma de suas palestras, nos anos de 1840, ele ilustrou o comportamento peculiar de um ímã e de uma espiral de fio ligada a um galvanômetro, o qual deveria registrar a presença de uma corrente elétrica. Para começar, não havia corrente no fio; mas, quando o ímã era introduzido no vão central da espiral, ou bobina, a agulha do galvanômetro se movia para um lado da escala, indicando a passagem de corrente. Quando o ímã era retirado do vão da espiral, a agulha pulava para a outra direção, mostrando que a corrente estava, então, fluindo para o lado oposto. Quando o ímã era mantido imóvel, em qualquer posição, dentro da espiral, ou bobina, não havia corrente alguma fluindo, e a agulha ficava imóvel.Na conclusão da palestra, um membro do auditório se aproximou de Faraday e disse: “Sr. Faraday, o comportamento do ímã e do fio de arame em espiral foi interessante, mas para que poderá servir?”.E Faraday respondeu, polidamente: “Senhor, para que serve uma criança recém-nascida?”.Foi precisamente tal efeito, cuja utilidade se viu questionada tão peremptoriamente por um membro do auditório, que Faraday usou para desenvolver o gerador elétrico que, pela primeira vez, tornou possível produzir eletricidade barata e em grande quantidade. Isto, por sua vez, tornou possível o desenvolvimento da tecnologia elétrica que nos circunda nos dias de hoje, e sem a qual a vida, no sentido moderno, seria inconcebível. A demonstração de Faraday foi uma criança recém-nascida que cresceu e se transformou num gigante.Nem mesmo o mais perspicaz dos homens pode sempre julgar o que é útil e o que não é.

…..

Com efeito, a menos que prossigamos com ciência e continuemos a reunir conhecimentos, afigurem-se eles úteis prontamente ou não, enterrarno-emos em nossos problemas e não encontraremos saída. Cabe, pois, ao leitor e a qualquer pessoa amparar a ciência e, onde possível, manter-se à frente dela, porquanto a ciência de hoje é a solução de amanhã – e também dos problemas de amanhã – e, o que é mais importante, a maior das aventuras, agora e em todo o sempre.”


Então agora entenderão que se mais alguém me perguntar “para que serve”, a pessoa levará:

[a]Um soco no queixo

[b]Uma piada irônica totalmente de grátis. Ela provavelmente não enxergará através da sutileza das entrelinhas…..então é bom que ela leia Asimov. Não dá pra se aprofundar sempre.

“If the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is, infinite.” William Blake